| |

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que sei. Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca, porque metade de mim é o que sinto, mas a outra metade é o silêncio. Que a música que ouço longe, seja linda ainda que tristeza. Que a mulher que amo, seja pra sempre amada ainda que distante, porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade. Que as palavras que eu fale, não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor. Apenas respeitadas, como uma única coisa que resta ao homem em um dado sentimento, porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo. Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que mereço. Que essa tensão que me corroi por dentro seja um dia recompensada, porque metade de mim é o que penso e a outra metade é um vulcão. Que o medo da solidão se afaste, e o que convive comigo mesmo, seja ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que lembro de ter dado na infância, porque metade de mim é lembrança do que fui e a outra metade, eu não sei! Que seja preciso mais que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito. E que o teu silêncio me fale cada vez mais, porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço. Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção. E que a minha loucura seja, enfim perdoada, porque metade de mim é o amor e a outra metade... Também!
(Oswaldo Montenegro)
Escrito por Lunático às 13h51
[]
[envie esta mensagem]
|
|