Sem Surpresas
 

Andando sem olhar para trás

 

“... andando sem olhar para trás”. Foi o que eu aprendi e foi o que menos usei. E com esse pensamento ando de encontro ao vento. Busco minha inspiração, busco um lugar para sentar, repousar, uma sombra. O dia já está no fim, dia cansativo, e o pôr-do-sol me vem com recordações, coisas que eu nunca nem mesmo vi. Por que isso acontece? O vento úmido, aquele mesmo que secou minhas lágrimas, vem agora mais forte, leva-me ao pé de uma arvore, leva-me aos meus pensamentos. Clima frio, aconchegante, paisagem, folhas secas, céu amarelado... O Sol parece esconder-se de mim, apagar-se. Deus existe! Chego devagar, meio sem querer, sem opções de algo melhor e sento-me como uma forma de desistência. Busco o ar fundo, forço. A vista caminha longe, estou voando pelo o horizonte. E eu que jurei não mais chorar. Trago a carta comigo, a carta que roubei. A letra que não é minha, o sonho que não era meu. As mãos trêmulas rasgam-na, nervosas; minha vergonha, meu constrangimento, minha timidez. Minha loucura. Eu! E houve quem não quis perceber, e teve quem não quis entender. Mas não importa, não quero que seja o que não tem que ser. Sem sacrifícios, por favor! De qualquer forma ficarei em silêncio, um pouco de lado das coisas, vazio bem sei, mas valorizado. Eu sei o que tenho que ser. O sol agora some de vez, junto com esse peso. Mas outro estar por vim. As estrelas, aos poucos dão o ar de suas graças: cintilantes. Vêem dizer-me o quanto fui idiota, o quanto me deixei levar. O quanto fui egoísta. Parecem rir de mim. “O ser vulnerável”. Não estou mais voando, a noite se apossou de minhas asas, aterrissei na minha escuridão. Lembro dos sorrisos intensos, das conversas descontraídas, dos olhares amorosos, das belas palavras ditas sem motivo, das tardes simples, dos defeitos... Bons momentos que agora desaparecem, um por um. Deslumbro neste momento, a lua: a matriz dos meus desejos e âncora da minha solidão, rainha de mim. Lua cheia, redonda me fazendo crer que tudo volta ao ponto de partida. Belo início pra quem não tinha aonde chegar. O frio arde, as lágrimas cessam. Não vejo mais motivos para tanta tristeza, nem tão pouco para sorrir. O frio congelou-me. O peso em mim se foi, a dor também. Os pensamentos são outros, porém a solidão é a mesma. Grito. Tenho que fazer algo. Mas ainda sim estou calmo, estou só e algo vem como consolo: eu mesmo. A lua no centro do céu, vem acariciar-me com sua luz. Parece querer levar-me, parece dizer que me ama. O silêncio é algo deslumbrante. Chego a ouvir vozes doces, Ele fala comigo. Não vejo nada além do caminho que agora se faz em minha frente. Aos poucos o sol vai nascendo e a lua despede-me. Toca em minha face e beija-me. O sol afugenta-a. Há uma explicação nisso? Restituição. Levanto-me por não ter outra condição, bato a poeira na roupa e ando calmamente. Os pássaros cantam, celebram um novo dia. E eu que sempre gostei do amanhecer por me fazer acreditar em novos horizontes, novos desafios. Nova vida. Então que venha outro sol, que queime mais que antes, que venha esse vento úmido mais uma vez, que traga as mesmas lágrimas, o mesmo pranto, a mesma dor. O que não me destruiu deixou-me mais forte. O que não começou não tem o por quê para acabar. E por que acabar algo que nem está perto do fim? Um novo dia veio e dessa vez será diferente. A lua mostrou-me que tudo volta ao mesmo lugar, mas quando voltamos não somos os mesmos de antes, somos mais maduros. Volto a minha casa e resgato-me. Busco as coisas que rebolei por não entender a angustia de ontem. Que se dane o resto, o lunático aqui sou eu e foi tudo sem surpresas. Eles que tem que aceitar e não sou eu que irei mudar, mas mudei, e fui eu que não percebi. Fui eu que errei. Abro a porta e deixo o vento levar a mágoa, aquele mesmo vento úmido que teima em seguir-me. A luz do sol clareia meu interior, minha casa, o mesmo sol que tanto odiei sem acreditar na luz da lua que vinha em seguida. Ambas luzes distintas que escolhemos como bússola. Agora surgem aquelas pessoas que deixei para trás, assim mesmo sem remorsos, as mesmas que eu julguei diversas vezes. Perdão. Uma em especial toca em meu ombro, uma que eu nunca a ouvi como deveria. Trago a carta em meu bolso, a mesma que rasguei, a mesma que não tinha a minha letra, a mesma do sonho que não era meu. Juntos os pedaços, meus pedaços e entrego. Entrego-me sem medo. Junto com ela, as refaço. Refaço-me com ela. E vem a tona os sorrisos intensos, as conversas descontraídas, olhares amorosos, as belas palavras, e vimos uma manhã simples como foram aquelas tardes com os nossos mesmos defeitos. Bons momentos que voltam com a mesma emoção de antes. Tudo volta ao normal, tudo volta ao início. O sonho não era meu, eu que era o sonho e que morri por não ter acreditado. Ressuscitei e estou de volta ao meu lar, as minhas pessoas, os meus erros. Cabeça erguida e os passos firmes. Tive uma nova chance e não vou desperdiçá-la. Não importa o que der de errado, vou continuar seguindo “Andando sem olhar para trás...”.

 

*Para minha família



Escrito por Lunático às 00h13
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