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A menina que suspira e o garoto dos mil beijos
Era uma vez uma moça simples, que pra tudo suspirava e sempre esperava alguém que viesse resgatar de sua prisão, com cavalo branco e tudo mais. Namorava sempre que podia, na calçada, mãos juntinhas e sorrisinhos afetuosos. Adorava surpreender-se com os telefonemas de ''boa-noite, durma bem amorzinho, com os anjinhos do céu''. Minúcias do relacionamento, que ela achava lindo. Ela adorava mandar e receber bilhetinhos. Colecionava o papelzinho do Ice Kiss com aquelas declaraçãozinhas de amor e até guardava no diário o palitinho de picolé de morango daquela noite de chuva e de muitos beijinhos. Ficava especialmente feliz quando o carteiro lhe entregava as correspondências, até mesmo porque o remetente era quem, todas as noites, vinha juntar as cadeiras na calçada: sua mãe. Isso sem falar das flores. Rosas vermelhas, preferencialmente, mandadas a qualquer tempo, deixavam-na suspirando. Alegria certa também era andar de mãos dadas na pracinha ou voltar do colégio na garupa da bicicleta só pra sentir o vento no rosto com aquele ar de aventura. Claro que ela planejava casar na igreja, com véu e grinalda, com chuvinha de arroz e lançamento de buquê, era seu sonho e, desde quando brincava de boneca, escolhera os nomes dos filhos: João, Francisco e José. Era capaz de separar-se da família inteira e mais meio mundo de amigos só para passar a lua de mel em Paris ou Canindé (se dé), e para ser feliz na mansão de seus sonhos ou no quartinho na casa do amado mesmo, tudo em nome do amor. Mas a menina dos Suspiros vivia se perguntando o que era o amor, como ia sabê-lo quando enfim fosse sorteada. Acabou por descobrir na ausência daquela tarde de domingo, ao se dar conta que tinha aversão a estádios de futebol, e passou a amar aquelas histórias nas séries de livros de amor: “Helena e suas paixões ardentes”. Também começou a percebê-lo nas brincadeiras de pega-pega na rua, feitos menina e menino. Nas conversas antes de dormir sobre aquele menino metido do colégio; no pedido que fez a Deus, em um momento cotidiano de contemplação: envelhecer juntos. Na solidão amarga suspirando agarrada ao travesseiro; no sorrir sem necessidade (e sorrir para o tempo é um dos indícios mais fortes do amor). E até nas telenovelas onde a menina angustiada sempre ficava com o galã da trama, isso sem falar nas trilhas sonoras onde chorava de emoção toda vez que a ouvia.
( A história segue abaixo )
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Escrito por Lunático às 02h18
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(Continuação)
Ai, ai! Sei não... Mas, ao contar-lhes essa história fica impossível e totalmente sem graça não lembrar do garoto dos mil beijos. Um rapaz que pelo seu pseudônimo, despensa qualquer apresentação. Era simpático e sempre se dava bem em suas, digamos, “aventurescas experiências amorosa prévia”. Adorava espalhar bilhetinhos de ''bom-dia'' e ''sonhei com você'', do criado-mudo à porta da geladeira. Adorava também, beijar sobre o gostinho daquele sorvete de napolitano, colocando um pouquinho de seu sorvete no rosto da amada e ficar passando a língua, (olha a censura!). Minúcias do relacionamento, que o tocavam de modo profundo. O garoto era estritamente romântico e guardava um adesivo da farmácia na carteira só porque a farmácia tinha o nome da pretendida e o slogan era: “aqui está a sua vida”. Isso, sem falar das flores. Rosas vermelhas que, por si só, encantavam-lhe os nomes. E era de fiel remetente a elas. A qualquer tempo, ao invés de buquês perecíveis, mandava a própria roseira. Não raro, mas as seis e pouco da manhã, lá estavam, ele e as rosas, enfeitando o dia de sua eleita, deixando-as na portaria do edifício. Ele era ainda de presentear alegrias. Uma vez, no meio da tarde, ligou para cantar pra ela: ''Tô louco pra te ver chegar/ Tô louco pra te ter nas mãos/ Deitar no teu abraço, / retomar o pedaço/ que falta no meu coração''. Outro dia sem nada marcado, no engarrafamento das 18 horas, lembrou-lhe: ''Meu bem, eu não suporto mais você longe de mim/ Por isso eu corro demais, sofro demais/ Só pra te ver meu bem''. Sem contar às vezes que, na madrugada fria, em tom de nostalgia, surpreendia, ''Estou com saudades'' (sempre no plural). E muitas tantas que, voltando do trabalho, deixava a saudade gravada na secretária eletrônica. Mas o garoto dos mil beijos não planejava casar, muito menos na igreja. Não da forma que a menina que a muito suspirava. É que ele teve uma infância solta no meio da rua; é que ele vivia se perguntando se o amor existia mesmo e por quanto tempo duraria. Ele não se deu conta, mas já tinha as respostas: na sobra do perfume que mantinha no vidro, ao alcance dos olhos; nas fotografias restantes, entre roupas e páginas, nas alianças amassadas da mãe, que ela guardava na caixinha de veludo vermelho (junto com o Cântico dos Cânticos). Na ausência de alguém em especial naquela tardinha de domingo, 50 mil pessoas espremidas no estádio para a final do campeonato estadual; no amanhecer solto lendo Vinicius de Moraes; no sorrir descontraído, em pleno expediente; quando, entre todas as pessoas da cidade juntas em uma festa a céu aberto, sentisse falta de apenas uma (talvez lembrasse daquele domingo que saíra do estádio faltando ainda vinte minutos pra acabar o primeiro tempo, só para ir vê-la). E foi assim que a beira daquela avenida movimentada, que a tomou pela mão e pediu-lhe em casamento. Porque Deus escreve novelas? Será que surgiu do improvável? E ele, que nem podia andar de mãos dadas, agora desfilava pela rua mostrando a aliança de noivado barata, mas orgulhoso de si e passou a existir só os dois no mundo. - Ah, Garoto dos mil beijos! O amor vai ao tempo, das eternidades que a produz. Ele soube que a se mesmo, pertenceu à engenhosa arte de pedir em casamento. E ao modo dele, gostou disso, pois teve, as alianças no bolso, desembestado, ir buscá-la. Ou então, terias exclamado, em outdoor, para a cidade toda ver: ''volta! Ainda te amo'' Ele mesmo confessou que gostava de ser posto no colo. Não costumava falar, mas desejava que um casamento fosse para a vida toda. E foi elaborar, detalhadamente, a arte quantas vez fosse necessário para viver ''felizes para sempre''. Ele soube que foi capaz de separar da mãe e de trair os amigos para viver a lua de mel em Canindé e para passar a viver feliz (a dois) nesse apartamento de apenas dois quartos, tudo em nome do amor. Silenciosamente, achou bonito quando ela planejou o casamento na capelinha do sítio do avô, entre mangueiras, com direito à chuva de arroz, bolhas de sabão, pôr-do-sol e um repertório de pássaros, marrecos e capotes. O álbum do casamento não deixou dúvidas: posou todo satisfeito para a foto que imitava o casalzinho do bolo. E o que dizer da música que cantou a ela? Valendo-se de Oswaldo Montenegro“... e Leo e Bia souberam amar”. E da história que ele havia contado no salão sobre uma princesa que era salva do dragão por um príncipe de um reino distante? Ai, ai... Sei não! O tempo passou, filhas nasceram, (Maria, Joana e Manoela) problemas vieram, e assim como as tristezas houve também alegrias e muitas outras histórias bonitas para contar, como aquela vez que ele ficou bêbado e refizeram os votos matrimônios no dia do aniversário dela, (isso vai ficar pra depois). - A menina que suspira novamente! E assim como os dois quiseram, viveram felizes juntos, ou pelo menos envelheceram juntos. O fato é que, para cada menina que suspira, há um garoto de mil beijos: brincando de bila na mesma calçada onde ela pula corda, parando ao lado no sinal vermelho, morando em ruas paralelas, tomando o mesmo elevador, seguindo o mesmo caminho de casa na volta do colégio, ou até, dividindo o mesmo local de trabalho, pois sei que existem pessoas que precisam amar e outras que precisam ser amadas. É como já disse, em umas certas palavras tortas que, para quando um nasce, a outro também vive. E o ciclo se fecha. Viva a democracia amorosa!
Escrito por Lunático às 02h11
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